5 min leitura

Sinais precoces de autismo: guia clínico para identificar alterações no desenvolvimento entre os 12 e 24 meses

Os primeiros dois anos de vida constituem uma janela decisiva para o neurodesenvolvimento infantil. É neste período que emergem competências fundamentais de comunicação, linguagem e interação social — e é também nesta fase que podem surgir os primeiros sinais precoces de autismo. Reconhecê-los atempadamente permite iniciar uma intervenção estruturada mais cedo, com impacto significativo no percurso desenvolvimental da criança e no bem-estar da família.

Este guia, dirigido a famílias, cuidadores e profissionais de saúde, sintetiza o que a evidência científica atual e a Norma da Direção-Geral da Saúde (DGS) recomendam para a vigilância clínica entre os 12 e os 24 meses.

Porque é importante a identificação precoce

A Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) manifesta-se, em regra, nos primeiros 12 a 24 meses de vida, embora alterações subtis possam ser observadas ainda antes do primeiro aniversário. A DGS enquadra a avaliação e a intervenção numa lógica multidisciplinar, assente em critérios clínicos.

A literatura recente reforça que a observação clínica do comportamento social e comunicativo continua a ser o pilar central do diagnóstico precoce do autismo, mesmo com o crescente interesse em biomarcadores e métodos complementares. A evidência internacional mostra que, embora a deteção precoce esteja a melhorar, o atraso no diagnóstico continua a ser uma realidade em muitos casos.

Sinais de alerta de autismo entre os 12 e 24 meses

Os sinais de alerta mais consistentes situam-se em dois grandes domínios: (1) comunicação e interação social e (2) padrões restritos e repetitivos de comportamento. Nem todos os sinais estão presentes em todas as crianças e a sua expressão varia consideravelmente.

Alterações na comunicação e interação social

  • Diminuição do contacto ocular e da atenção social recíproca durante interações do dia a dia.
  • Não resposta ao nome, sobretudo a partir do final do primeiro ano de vida.
  • Atraso ou ausência de balbucio, gestos comunicativos e linguagem funcional.
  • Menor partilha de interesse: a criança aponta menos para mostrar objetos ou procura menos o olhar do cuidador para partilhar experiências — sinais de fragilidade na atenção conjunta.
  • Menor interesse por interação social com cuidadores ou pares e brincadeira menos variada.

Padrões restritos e repetitivos

  • Comportamentos motores repetitivos (por exemplo, balancear, agitar as mãos).
  • Interesses muito restritos ou fixação intensa em objetos ou partes de objetos.
  • Respostas sensoriais atípicas: hipersensibilidade ou hiporreatividade a sons, texturas ou luzes.

Aspetos motores e sensoriais

A DGS refere ainda que dificuldades motoras e alterações no processamento sensorial podem integrar a apresentação clínica, embora não sejam critérios de diagnóstico isolados. A observação destes aspetos ajuda a construir um perfil desenvolvimental mais completo.

O que a atenção conjunta nos diz

A atenção conjunta — a capacidade de partilhar o foco de atenção com outra pessoa sobre um objeto ou evento, por exemplo, através do olhar ou do gesto de apontar — é um pilar do desenvolvimento social. A sua ausência ou fragilidade persistente, como uma menor tendência para apontar para mostrar algo de interesse, é um dos sinais precoces mais consistentes e deve motivar uma avaliação clínica atenta.

Como funciona a avaliação clínica em Portugal

Segundo a Norma da DGS, a avaliação é essencialmente clínica e assenta na observação estruturada dos sinais e sintomas nas áreas da comunicação/interação social e dos comportamentos restritos e repetitivos.

Quem participa na avaliação

A avaliação deve ser encaminhada para equipas com experiência em neurodesenvolvimento, que podem incluir:

  • Pediatria: vigilância do desenvolvimento e triagem inicial.
  • Pedopsiquiatria/Psiquiatria: avaliação diagnóstica.
  • Psicologia: avaliação cognitiva, comportamental e adaptativa.
  • Terapia da fala: avaliação da comunicação e linguagem.
  • Terapia ocupacional: avaliação do perfil sensorial e competências funcionais.

O papel do cuidador

A informação trazida pela família é insubstituível. Vídeos curtos do dia a dia, registos de comportamentos observados em casa e a descrição da evolução ao longo dos meses ajudam a equipa clínica a construir uma imagem fiel do desenvolvimento da criança.

Quando procurar avaliação especializada

Recomenda-se procurar uma avaliação especializada sempre que existam preocupações persistentes sobre o desenvolvimento da criança, especialmente se os sinais de alerta mencionados anteriormente forem observados de forma consistente na janela crítica dos 12 aos 24 meses.

A intuição do cuidador merece ser levada a sério. Quando existe uma preocupação persistente, a referenciação atempada para avaliação é sempre preferível à espera.

Implicações para a intervenção

A evidência é consistente: quanto mais precocemente se inicia a intervenção, maior é a oportunidade de potenciar a comunicação, a interação e as competências adaptativas. A intervenção precoce visa criar contextos que favoreçam o desenvolvimento da criança, respeitando o seu perfil individual.

Num centro de estimulação, o foco da avaliação funcional deve incluir:

  • Comunicação social e atenção conjunta.
  • Jogo e linguagem.
  • Flexibilidade comportamental.
  • Perfil sensorial.

A articulação entre a equipa clínica, a família e — quando aplicável — a creche ou o infantário é essencial para garantir consistência nas estratégias utilizadas nos diferentes contextos de vida do utente.

Mensagem final para famílias e cuidadores

Observar o desenvolvimento de uma criança é um exercício de atenção paciente. A maioria das variações individuais faz parte da diversidade típica do neurodesenvolvimento. No entanto, quando surgem sinais persistentes de fragilidade na comunicação social, na linguagem ou na flexibilidade comportamental, procurar avaliação especializada é um gesto de cuidado.

A identificação precoce abre portas a apoios ajustados, a intervenções estruturadas e a um percurso desenvolvimental mais harmonioso para a criança e para a família.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação clínica.

Na Memo.ria — Centro Clínico, em Aveiro, disponibilizamos avaliação funcional e apoio à estimulação do desenvolvimento em articulação com a equipa clínica de referência da criança. Se procura orientação, marque uma conversa inicial connosco.

Sinais precoces de autismo entre os 12 e 24 meses: guia clínico para famílias e profissionais reconhecerem alterações do neurodesenvolvimento infantil.

Referências

  • [1] Direção-Geral da Saúde. Norma sobre Perturbações do Espetro do Autismo — abordagem diagnóstica e intervenção.
  • [2] Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil — vigilância do desenvolvimento.
  • [3] Revisões e artigos clínicos sobre diagnóstico precoce da Perturbação do Espetro do Autismo e marcadores de neurodesenvolvimento (literatura internacional revista por pares).